Experimentando Jesus – Parte II

Experimentando Jesus – Parte II

Texto Inspirado nos capítulos I ao V do livro “Experimentando as profundezas de Jesus Cristo Através da Oração”, escrito por Madame Guyon no século XVII, publicado pela Editora dos Clássicos
Madame Guyon escreveu o livro “Experimentando as profundezas de Jesus Cristo através da oração” por volta de 1670. Pertencia a igreja católica, porém discordando profundamente de qualquer coisa que não estivesse fundamentada em Cristo. Com sua fé e seus escritos, ela sofreu prisões e perseguições diversas, perdeu tudo que tinha e foi desprezada por seu marido, mas em nenhum momento recuou de suas convicções fundamentadas na Palavra. Seus escritos tiveram influência determinante na vida de gigantes da fé nos séculos posteriores e até os nossos dias. Recomendamos a leitura do referido livro, bem como o livro “Autobiografia de Madame Guyon”, publicados pela Editora dos Clássicos.

Na primeira parte desta série, analisamos alguns pontos dos três primeiros capítulos do livro, que foi escrito em escala crescente de experiência com o Senhor, como ela mesmo diz: “do lugar raso para as profundezas”.

No primeiro degrau ela fala para os que “andam desgarrados como ovelhas” (cf. Is. 53:6) e não estão desfrutando do alimento disponível através da oração, porém um “tipo de oração que conduz à presença de Deus e nos conserva lá por todo o tempo.”

Orando em todo o tempo com toda a oração e súplica no Espírito, e vigiando nisto com toda a perseverança e súplica por todos os santos.
(Efésios 6:18)

No segundo degrau ela trata do “orar a Escritura” e “contemplar ao Senhor”. Nas suas palavras: “Nunca procure o Reino de Deus em qualquer lugar, senão dentro de você” (cf. Lc. 17:21). Fala da quietude e ausência de ansiedade que devemos ter para desfrutar Dele (cf. Fp. 4: 6-7), pois não fala com apressados (Sl. 46:10) e com incrédulos (Hb. 11: 1,6).

Nos capítulo 4, quando entramos no terceiro degrau, a qual ela chama de segundo nível, temos aquilo que parece ter fugido ao entendimento da teologia da prosperidade. As promessas de Deus não podem ser confundidas com ordens, invertendo a condição de quem é Senhor e de quem é o servo.

“Ao aproximar-se do Senhor, em oração, tenha o coração pleno de amor puro, um amor que nada procura para si próprio. Tenha um coração que nada retira do Senhor, mas que apenas quer agradá-Lo e fazer a sua vontade.” (In. pg. 31).

“Receba pela fé o fato de que qualquer coisa que lhe aconteça é o desejo Dele para você, nesse momento. Quando for ao Senhor dessa maneira, verá que seu espírito estará em paz, não importando qual seja a sua condição. Os tempos de sequidão serão a mesma coisa que os tempos de abundância, porque você terá aprendido a amar a Deus somente porque você o Ama, não por causa de suas dádivas, nem mesmo por sentir sua presença.” (In. pg. 32).

Talvez isto seja chocante para quem busca a Deus em troca de dádivas, mesmo que não sejam materiais. Cuidado quando você combate a anti-bíblica teologia da prosperidade, mas esquece que também não deve buscar a Deus em troca de sensações da alma e de dons. Deus pode nos conceder qualquer coisa que esteja na sua vontade, mas devemos buscá-lo simplesmente porque cremos Nele e o amamos acima de qualquer coisa. Quem o busca em troca de sensações, pode encontrar o engano de satanás. Como também devemos fugir de um cristianismo formal, aliado com os valores do mundo, que é popular, porém distante da realidade do evangelho, que busca o "entretenimento cristão" e nega a realidade da mensagem da cruz.

Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece” (Fp. 4:13) é um dos textos mais populares da Bíblia. Vemos pessoas esbravejando ele como se fosse uma garantia divina para realização de seus projetos pessoais. O incrível é que, tal como outros textos da Bíblia, é citado fora do contexto em que está. A Bíblia não foi escrita em versículos, uma ferramenta útil para estudo, mas em livros ou cartas. Vejamos o mesmo texto dentro do contexto em que está. Como é diferente o entendimento, e é tão claro que dispensa comentários:

“Não digo isto como por necessidade, porque já aprendi a contentar-me com o que tenho. Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em toda a maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade. Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece.”
(Fp. 4: 11-13)

Outro texto bíblico bastante popular para fundamentar “ordens a Deus”: “E tudo quanto pedirdes em meu nome eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho. Se pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei.” (Jo 14: 13-14).

Mais uma vez argumentamos que a Bíblia é um só livro. Quem interpreta a Bíblia é a própria Bíblia. Ela é permeada de princípios, e são estes que devem fundamentar qualquer entendimento de suas páginas. Cada frase exposta não deve ser compreendida isoladamente, e sim com base no sentido geral da Palavra. O mesmo João que expressou o texto acima, também escreveu:

“E esta é a confiança que temos nele, que, se pedirmos alguma coisa, segundo a sua vontade, ele nos ouve.”
I João 5:14


O contentamento com o que temos e somos é a chave para alcançarmos uma relação madura e bíblica com nosso Deus.

Mas é grande ganho a piedade com contentamento. Porque nada trouxemos para este mundo, e manifesto é que nada podemos levar dele. Tendo, porém, sustento, e com que nos cobrirmos, estejamos com isso contentes. Mas os que querem ser ricos caem em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e ruína. Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores. Mas tu, ó homem de Deus, foge destas coisas, e segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a paciência, a mansidão.
I Tim. 6: 6-11

Há um temor profundo em nossos corações em relação à eternidade de muitos que estão fundamentando a fé em bases não bíblicas. Muitos desses irmãos poderão entrar em um estado de frustração com Deus e perderem a fé.

Temos o direito de usar o nome de Jesus. Como filhos de Deus temos esse direito. E o que seria de nós sem esse recurso? Toda autoridade foi conferida a Jesus, não a nós. Participamos dessa autoridade por sermos membros do Seu Corpo. Mas, Jesus continua sendo a Autoridade.

Um exemplo poderia ilustrar isto. Muitos de nós já tivemos que outorgar uma procuração a outra pessoa para agir em nosso nome. Pense em uma situação em que você assina uma procuração a outra pessoa para que esta possa agir em seu nome. Assim, esta pessoa estará representando você e, para isto, deverá agir segundo a sua vontade e de acordo com o seu caráter. Digamos que esta pessoa passe a usar essa procuração para satisfazer a própria vontade e não a sua. Vamos supor que ela vá a um banco e requeira um empréstimo em seu nome. O gerente do banco vai estranhar e pensar: ‘mas, quem assinou esta procuração é cliente desse banco e sei que ele não gosta de tomar dinheiro emprestado... ’. O seu representante estará utilizando os poderes que ele recebeu através da procuração para satisfazer a vontade e desejos próprios. E agindo assim, demonstrará que não conhece ou está traindo a vontade e o caráter de quem lhe outorgou a procuração.

Do mesmo modo, pedir em nome de Jesus é antes de tudo pedir de acordo com a Sua vontade e caráter. Primeiro, é pedir em harmonia com a vontade de Deus expressa na Bíblia. Segundo, é pedir em harmonia com a vontade do Senhor para aquela situação específica. Lembre-se do leproso de Marcos 1:40-41, ele disse “Senhor, se queres, bem podes limpar-me”. Esse homem cria no poder do Senhor, mas não sabia qual era a vontade de Jesus para aquela situação. Terceiro, é nunca esquecer de que a vontade de Deus é soberana e Ele age como quer e ninguém conhece a Sua mente ou pode dizer a Ele faça assim ou não? (Romanos 11:33-36). Quarto: É confiar que a vontade do Senhor é sempre boa, perfeita e agradável (Rm. 12:2).

Quinto: É pedir com objetivos puros. Na carta de Tiago é dito: “Pedis e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites.” (4:3). E o que está por detrás disso? A resposta está nos versículos 2 e 4: “Cobiçais, e nada tendes; matais, e sois invejosos, e nada podeis alcançar; combateis e guerreais, e nada tendes, porque não pedis. Adúlteros e adúlteras, não sabeis vós que a amizade do mundo é inimizade contra Deus? Portanto, qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus.” Quantos utilizam o nome de Jesus para satisfazerem os apetites da sua carne, para terem o que os seus olhos cobiçam, para gozarem daquilo que o mundo goza? Nessa onda vemos, infelizmente, muitos ordenando e ‘profetizando’ no Nome do Senhor para obterem tudo aquilo que vai saciar a concupiscência dos seus olhos, da sua carne e a sua soberba (v. I João 2:15-17).

Amados, o Nome de Jesus tem sido confundido com ‘varinha de condão’, mas não é assim. Essa distorção do que está escrito na Palavra tem gerado uma avalanche de pessoas decepcionadas com Deus, pois a ‘varinha de condão’ em que eles foram levados a acreditar parece estar com defeito. Onde está escrito que Deus se comprometeu a nos dar riquezas, carro novo, conta bancária, saúde, cura, etc.? Seu compromisso é com o nosso sustento e Jesus declarou que o Pai sabe do que necessitamos (Mateus 6:32) e não do que cobiçamos.

Algo muito lamentável nesta doutrina é que retira do Evangelho a mensagem da cruz que é imprescindível não apenas para a salvação do homem, mas para a mortificação do seu EU, da sua ALMA, obra esta que o Espírito Santo está há dois mil anos realizando nas vidas daqueles que foram resgatados de sua vã maneira de viver. O irmão Watchman Nee com muita propriedade disse que no meio das nossas dificuldades, Deus às vezes quer demonstrar o seu poder (quando cura, ressuscita, dá), mas algumas vezes ele quer demonstrar a sua vida (testemunho em meio a dor, ao sofrimento, manifestação da sua graça). Rendamo-nos à Sua vontade e oremos com entendimento e pureza.

No capítulo 5, Madame Guyon descreve um quarto degrau, que ela denomina “Períodos de sequidão”. Descreve que quando estamos nos aproximando do Senhor, tempos de sequidão nos espera. Ela diz: “os tempos de aridez é parte do caminho do Senhor. Deixe-me fazer-lhe uma pergunta: que tal se o Senhor pedir a você que gaste toda sua vida esperando que ele retorne a você? Como você se conduziria se este fosse o quinhão que o Senhor lhe desse para o resto da vida? Que faria você?”

Por vezes ficamos perplexos com a biografia de grandes servos e servas do Senhor ao longo dos séculos, inclusive nos dias atuais. Lemos a maravilhosa e tremenda obra que o Senhor realizou e realiza através deles. Muitos perderam tudo que tinham, muitos foram presos por longos tempos ou até morreram nas prisões, todos eles abriram mão de qualquer reconhecimento e deleite do mundo e fugiram das riquezas e da soberba da vida. Qual foi o segredo deles? O que enxergaram? Em que fundamentaram suas vidas?

Todos estes morreram na fé, sem terem recebido as promessas; mas vendo-as de longe, e crendo-as e abraçando-as, confessaram que eram estrangeiros e peregrinos na terra. Porque, os que isto dizem, claramente mostram que buscam uma pátria. E se, na verdade, se lembrassem daquela de onde haviam saído, teriam oportunidade de tornar. Mas agora desejam uma melhor, isto é, a celestial. Por isso também Deus não se envergonha deles, de se chamar seu Deus, porque já lhes preparou uma cidade.
Heb. 11: 13-16

E Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele de dia e de noite, ainda que tardio para com eles? Digo-vos que depressa lhes fará justiça. Quando porém vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra?
Lucas 18: 7-8

Fundamentemos nossa fé em bases sólidas e bíblicas. O Senhor não veio oferecer a glória do mundo a nós, ao contrário, Ele disse que nos espera o desprezo do mundo:

Dei-lhes a sua Palavra, e o mundo os odiou, porque não são do mundo, assim como eu não sou do mundo.
(João 17: 14)

Não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do mundo. E o mundo passa, e a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre.
(I João 2: 15-17)

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